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terça-feira, 1 de novembro de 2016

texto: OCUPAÇÃO MONARCA - Lisboa II

A intervenção urbana OCUPAÇÃO MONARCA - Lisboa II é uma continuação de OCUPAÇÃO MONARCA - Lisboa, realizada em 2015 [ veja aqui >> ], só que agora os azulejos de papel foram todos pintados à mão pelo artista (tinta acrílica), de forma que a referência aos azulejos de figura avulsa portugueses seja ainda mais direta.

Azulejos de figura Avulsa | Porto, Portugal // Single figure tiles | OPorto, Portugal

Como na intervenção urbana anterior, os azulejos de papel foram aplicados na forma de lambe lambe, com cola de amido, sobre paredes azulejadas, como complemento às faltas de azulejos nestas fachadas. Nesta intervenção temos novamente como base a icônica imagem de um soldado em uniforme camuflado e armado com um fuzil, com asas de borboleta saindo de suas costas, que pode ser encontrada em vários outros trabalhos do artista, acompanhada de outros desenhos representativos do universo militar: botinas e capacetes, tanques de guerra, granadas, bombas, pistolas, entre outras.

Desta vez, ao invés da ornamentação floral se dar sobre as imagens militares, os azulejos de papel com estas imagens são intercalados por azulejos de papel com imagens de flores copiadas dos azulejos originais produzidos pela fábrica lisboeta Viúva Lamego entre o século XIX e XX.

Ocupação Monarca - Lisboa II // Monarch Occupation - Lisbon II

Os projetos de arte urbana de Fábio Carvalho atuam como pequenas inserções, peças que invadem o espaço quase como um parasita. As intervenções aparecem mais por tensionarem o que já está lá, em vez de impor-se de cima para baixo a um espaço. As intervenções exigem uma certa intimidade para entrar em ação. Eles permanecem dormentes até que você as ative com o seu olhar. Eles não gritam - sussurram.

O trabalho atual de Fábio Carvalho busca propor uma reflexão sobre estereótipos e expectativas de gênero, através da sobreposição e conflito entre os clichés de masculinidade ideal, como o militar, o atleta musculoso, o cowboy, o trabalhador braçal, com elementos e labores tradicionalmente atribuídos ao terreno do feminino, como padrões decorativos florais, a louça de porcelana, flores e borboletas, bordados e rendas. Com sua produção, o artista procura questionar o senso comum de que força e fragilidade, virilidade e poesia, masculinidade e vulnerabilidade não podem coexistir, e nos lembrar que tudo aquilo que nos parece eterno e definitivo, são na verdade acordos no tempo e espaço.



The urban intervention MONARCH OCCUPATION - Lisbon II consists of a continuation of the previous intervention, MONARCH OCCUPATION - Lisbon, that took place in 2015 [ see it here >> ]. This time, instead of using rubber stamps to print the paper wall tiles, the artist did all the painting by hand, to achieve a more accurate ressemblance to the original portuguese's single figure wall tiles.

Azulejos de figura Avulsa | Odivelas, Portugal // Single figure tiles | Odivelas, Portugal

Then, the paper tiles were pasted on tiled facades, with starch glue, where the original ceramic tiles were already missing, by decay or theft. No real tile were covered by the paper tiles.

This intervention is also based on the iconic image of a armed soldier in camouflage uniform, with butterfly wings out of his back, which can be found in a variety of other art works by the artist, accompanied by new images, all of them belonging to the military universe: boots and helmets, tanks, grenades, bombs, pistols, among others. 

This time the military ilustrations were not decorated with floral ornamentation; instead, the military paper tiles were interleaved by floral paper tiles, copied from real floral ceramic tiles, produced in the 1800s and 1900s by Viúva Lamego ceramic factory (Lisbon).

Fábio Carvalho's urban art projects act as small insertions, pieces that invade the space almost like a parasite. The interventions appear mainly by tensioning what is already there, rather than imposing themselves top down to a space. The interventions require a certain intimacy to get into action. They remain dormant until you activate them with your look. They do not shout - they whisper.

Fábio Carvalho's current art work attempts to propose a reflection on gender stereotypes and expectations, by overlapping clichés of the "ideal" masculinity , like the military, muscular athlete, the cowboy, the handyman, with elements and labors traditionally assigned to the female world, like floral decorative patterns, porcelain tableware, flowers and butterflies, embroidery and lacework. With his production, the artist seeks to question the common sense that strength and fragility, virility and poetry, masculinity and vulnerability cannot coexist, and remember that what seems eternal and definitive, are actually cultural agreements in time and space.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

texto: Fábio Carvalho retorna a Lisboa, Portugal, para a segunda fase da intervenção urbana APOSTO

Depois de passar 30 dias na Residência Artística HS13rc entre fevereiro e março deste ano, o artista brasileiro (Rio de Janeiro) ​Fábio Carvalho retornou a Lisboa este mês para realizar a segunda fase do projeto de intervenção urbana APOSTO, e ficará na cidade até 17/11. Na primeira fase do projeto, o artista criou dois novos padrões de azulejo, a partir de fotos de peças da série "Delicado Desejo". A série "Delicado Desejo" é composta por armas de fogo criadas a partir de um patchwork de diversas rendas. [http://www.fabiocarvalho.art.br/delicadodesejo.htm]

Os novos padrões de azulejo foram impressos em papel, e depois aplicados com cola de amido em fachadas de prédios lisboetas onde os azulejos originais já estavam em falta, por deterioração ou roubo. Nenhum azulejo real foi encoberto pelos azulejos de papel do artista. A escolha entre um ou outro dos padrões criados pelo artista era feita de forma a se conseguir a melhor integração possível com os azulejos originais, já existentes nas fachadas. 

APOSTO - fev/mar 2015

intervenção urbana APOSTO durou 35 dias, e rendeu 45 intervenções em fachadas e mais de 300 inserções de azulejos de papel, 5 visitas guiadas, 4 entrevistas (3 Portugal, 1 Brasil), e 58 artigos/notas em jornais, sites e revistas (34 Portugal, 18 Brasil, 2 Espanha, 3 EUA, 1 República Checa).

Logo após a intervenção urbana APOSTO o artista realizou a exposição individual REJUNTE na galeria do Instituto Pretos Novos (Rio de Janeiro), com curadoria de Marco Antonio Teobaldo, onde apresentou uma seleção de fotos da ação em Lisboa, bem como novos trabalhos novos, desdobramentos da ação APOSTO.

Nesta segunda fase, batizada como “APOSTO 2.0”, Fábio Carvalho irá criar uma variedade de novos padrões para seus azulejos de papel, “sob medida”, visando um maior diálogo entre o padrão original na fachada e o padrão criado pelo artista. Desta forma, cada fachada será completada com um desenho de azulejo desenvolvido especialmente para aquele prédio.

Fábio Carvalho conta que desde que começou a vir à Lisboa com regularidade, a partir de 2011, ficou interessado pelos remendos que as pessoas fazem nas fachadas de suas casas, usando padrões diferentes dos originais para completar os buracos que vão aparecendo, e que isto foi um dos pontos de partida para esta intervenção artística.

APOSTO 2.0 (projeto)

Na página hs13rclisboa.blogspot.com.br  é possível conhecer a primeira fase da intervenção urbana, além de acompanhar a evolução da segunda fase “APOSTO 2.0”.


​Intervenção urbana OCUPAÇÃO MONARCA​

Além de “APOSTO 2.0”, o artista também trouxe para Lisboa a intervenção urbana “OCUPAÇÃO MONARCA”, iniciada em agosto deste ano no Rio de Janeiro. A intervenção urbana “OCUPAÇÃO MONARCA” consiste na aplicação de lambe lambe (impressão com tinta acrílica e carimbos s/ papel, aplicados com cola de amido) sobre postes e outras peças do mobiliário urbano em estado de degradação no Rio de Janeiro. Em Lisboa, o lambe lambe também assumirá a forma de azulejo de papel, para ser aplicado em portas e janelas preenchidas com tijolos e cimento em imóveis abandonados, e também como complemento às faltas de azulejos em fachadas.

OCUPAÇÃO MONARCA | Travessa dos Barbadinhos

Nesta intervenção temos como base a icônica imagem de um soldado em uniforme camuflado e armado com um fuzil, com asas de borboleta saindo de suas costas, que pode ser encontrada em uma variedade de outros trabalhos do artista, acompanhada de novos desenhos, todos advindos do universo militar: tanques de guerra, granadas, bombas, pistolas, facões, entre outras, ornamentados por uma variedade de flores. 

​Enquanto APOSTO parte ​do princípio dos azulejos de padrão, a série ​OCUPAÇÃO MONARCA ​foi criada como uma referência aos azulejos de ​​figura avulsa portugueses.


OCUPAÇÃO MONARCA | Arco de Jesus

Como em toda a sua produção, Fábio Carvalho procura questionar o senso comum de que força e fragilidade, virilidade e poesia, masculinidade e vulnerabilidade não podem coexistir, propondo uma discussão sobre estereótipos de gênero.

Conheça a produção de Fábio Carvalho em: www.fabiocarvalho.art.br

sexta-feira, 15 de maio de 2015

texto: Fábio Carvalho abre individual REJUNTE na Galeria Pretos Novos

Ação artística nas fachadas de Lisboa em exposição na Gamboa

A exposição Rejunte, de Fábio Carvalho, com a curadoria de Marco Antonio Teobaldo, será inaugurada no dia 27 de maio, às 18 horas, na Galeria Pretos Novos. Obras inéditas e registros da ação artística em Lisboa, realizados a partir da intervenção urbana Aposto, no qual o artista criou três novos padrões de azulejos impressos a laser sobre papel, que foram aplicados com cola de amido em fachadas de prédios lisboetas onde os azulejos originais haviam desaparecido por deterioração ou vandalismo. Foram 35 dias e 300 peças aplicadas em 45 pontos de intervenção. Os "azulejos de papel", ao mesmo tempo que causam um certo estranhamento ao olhar, podem ser por vezes facilmente confundidos com os azulejos originais. Os projetos de arte urbana de Fábio Carvalho atuam como pequenas inserções, que invadem o espaço e ganham uma força maior ao tensionarem o que já estava lá.

APOSTO n° 7
impressão fine arte sobre papel photo matte | 45 x 60cm | 2015

Tudo começou a partir dos trabalhos da série Delicado desejo, formados por um patchwork de rendas diversas, produzidas originalmente para serem aplicadas em roupas femininas. Neste caso, elas são combinadas em formato de armas de fogo em tamanho real, contrapondo a delicadeza natural do material com artefatos normalmente associados à virilidade bruta. Na exposição Rejunte serão apresentadas 4 peças desta série: 3 pistolas e 1 fuzil modelo AR-15. De acordo com o artista, sua produção atual procura questionar o senso comum que reforça a incompatibilidade entre força e fragilidade, virilidade e poesia, masculinidade e vulnerabilidade, propondo uma discussão sobre estereótipos de identidade de gênero.

Delicado desejo n° 6
rendas | 2014 | 30 x 40 cm

A série Transposto, trabalho inédito desenvolvido expecialmente para a exposição Rejunte, parte de azulejos e fragmentos de azulejos coletados pelo artista em caçambas de lixo, resultado de restos de obras de remodelagem das antigas casas. O material foi inserido em moldes com cimento, de forma a se criar "pedaços de parede", como se tentasse resgatar uma memória daquilo que estes azulejos um dia foram por tanto tempo, antes de serem descartados. Sobre estes "pedaços de paredes" foram colados os mesmos "azulejos de papel" usados na intervenção urbana em Lisboa.

Transposto n° 2
azulejos, impressão laser s/ papel, cimento, cola PVA, lona, chassi de madeira | 41 x 33 cm | 2015

O artista propõe ainda uma ação coletiva batizada de (Re)Junto, na qual os visitantes da exposição poderão colar "azulejos de papel" diretamente sobre as paredes da galeria, delegando ao público a composição final da obra, numa referência direta a Athos Bulcão, que por vezes deixava por conta dos operários a decisão de como os azulejos deveriam ser aplicados em seus painéis, como ocorreu por exemplo, com a obra da Praça da Apoteose, Sambódromo, Rio de Janeiro (1983).

exposição REJUNTE
de Fábio Carvalho
curadoria: Marco Antonio Teobaldo

inauguração 27 de maio - 18h
visitação 28 de maio a 25 de julho
terça a sexta - 12h > 18h
sábado - 10h > 13h

Galeria Pretos Novos
Rua Pedro Ernesto, 34 - Gamboa
fone 2516-7089

quarta-feira, 22 de abril de 2015

texto: Íntegra da entrevista para o portal Conexão Lusófona

entrevista para Bruna Angélica Pelicioli Riboldi
em 17/04/2015


Bruna Riboldi: Primeiro, gostava de entender melhor como surgiu a ideia do projeto. Os azulejos em falta nos prédios era algo que lhe fazia confusão/causava desconforto? o que motivou a intervenção justamente com os azulejos?

Fábio Carvalho: Há alguns anos uso em meu trabalho padrões decorativos de louça de mesa, bem como peças de louça (faiança e porcelana), e até fiz algumas visitas a fábricas de faiança e porcelana aqui no Brasil. Então eu já não estava muito longe da cerâmica. Em 2009 participei de um projeto de arqueologia limpando e separando fragmentos de azulejos do século XIX pelo padrão decorativo, oriundos de escavações aqui no Rio de Janeiro. Foram muitos meses com a cara enfiada em milhares de cacos de azulejos. Durante este trabalho houve visitas a igrejas antigas e ao Museu do Açude, que tem um acervo impressionante de azulejos, telhões de faiança e cerâmica decorativa (urnas, pinhas, estatuária, etc.). Aí certamente surgiu o embrião do meu interesse pela azulejaria antiga.

Macho Toy (sino e sunga verde)

Em 2011 estive em Portugal para minha primeira residência artística no país (Bordallianos do Brasil), e foi quando eu me tornei por completo num apaixonado pela cultura portuguesa em geral, e pela cerâmica e azulejos antigos em particular, tendo até iniciado naquele ano um projeto paralelo de levantamento dos azulejos antigos aqui no Rio de Janeiro (azulejosantigosrj.blogspot.com.br). Foi nesta primeira viagem a Portugal que comecei uma imensa coleção de fotos de fachadas e de pormenores de azulejaria em Portugal. Para minha felicidade, tenho retornado anualmente a Portugal desde então, para residências artísticas e exposições, de forma que meu interesse pela azulejaria só fez aprofundar, e a coleção de fotos aumentar. Já são mais de 5 mil fotos!

Uma parte significativa desta coleção são fotos de fachadas azulejares com lacunas, algumas enormes, muitas vezes  em péssimo estado, algo que me entristece demais, pois são a face explícita de dois problemas muito sérios: a falta de conservação dos imóveis, e o roubo de azulejos para venda em feiras e antiquários, ambos problemas que também acontece aqui no Brasil em todas as cidades que possuem fachadas azulejadas, como Rio de Janeiro, Salvador, Belém, São Luís, etc.

Outra parte desta coleção são fotos de “remendos” em fachadas onde as pessoas usaram azulejos diferentes dos padrões originais, que mesmo não sendo o ideal, cria em alguns casos umas colchas de retalhos fantásticas!


Quando cheguei em Lisboa para mais esta residência artística não tinha qualquer projeto pré elaborado, apenas o desejo de repetir algo nos moldes do que havia feito ano passado, com a intervenção urbana Migração Monarca. Mas logo nos primeiros dias, quando fazia mais fotos de azulejos e remendos, me ocorreu que poderia tentar algo com isso. Por estes dias eu estava fazendo também pesquisa de material em retrosarias para uma nova peça da série “Delicado Desejo” que são armas de fogo feitas com rendas, e resolvi juntar as duas coisas, criar um padrão de azulejos a partir das fotos destas armas de rendas.

BR: quanto tempo você esteve em Lisboa para este projeto? em quais datas precisamente foi feita a intervenção? 

FC: Estive em Lisboa por 40 dias, mas a intervenção aconteceu por 35 destes dias, de 12/2 até 18/3.

BR: os prédios que receberam os azulejos foram mapeados anteriormente ou encontrados "ao acaso"? 

FC: Um pouco de ambos. De forma geral, os prédios foram encontrados de dia, tanto quando saía propositalmente para fazer a prospecção de possíveis locais para a intervenção, quanto quando saía à rua para afazeres diários comuns. Quando encontrava “candidatos”, eu os fotografava ainda sem a intervenção, e os marcava em um mapa para poder reencontrá-los depois. Porém, houve vezes, principalmente nas duas semanas finais do projeto, em que eu saía para alguma área da cidade já levando comigo azulejos de papel e a cola de amido, e quando encontrava uma fachada que poderia ser intervencionada, o fazia de imediato.

APOSTO n° 38, antes e depois da intervenção

BR: quais são os locais exatos onde estão os prédios onde foi realizada a intervenção?

FC: A maioria das intervenções aconteceu em Penha de França e Anjos, pois eu estava hospedado nesta região, mas há muitos também na Graça, e mais alguns pelo Bairro Alto, Baixa, São Cristóvão e Madalena. Os mapas com as localizações exatas de cada uma das intervenções encontram-se neste link >>.

BR: há uma estimativa do número de azulejos "instalados"?

FC: Usei um pouco mais de 300 azulejos de papel.

BR: quantos foram os padrões de azulejos criados? foram criados antecipadamente, ou após conhecer o local das instalações?

FC: Eu criei 3 padrões no total, porém originalmente havia pensando em apenas um padrão, que eu criei a partir de um conceito muito comum na azulejaria portuguesa, no qual a partir de apenas uma mesma unidade, você chega a um desenho maior, combinando de 4 a 8 azulejos, apenas com a rotação dos azulejos. 

Primeiro padrão criado para a intervanção - APOSTO n° 5

Mas logo me deparei com situações onde este padrão não se ajustaria bem, então criei o segundo padrão, para dialogar melhor com fachadas onde o desenho já está completo com apenas um azulejo, que foi usado em várias fachadas, como no exemplo abaixo (foi justamente ao me deparar com esta fachada com uma enorme falta que veio a vontade de criar).

Segundo padrão criado para a intervanção - APOSTO n° 14

Por fim, eu criei o terceiro padrão, exclusivamente para uma única fachada, pois esta apresenta um desenho bem menos comum em Lisboa, de um padrão que é composto por 2 azulejos diferentes, que juntos foram um motivo em linhas diagonais. Para este terceiro padrão eu igualmente criei 2 desenhos diferentes que se complementam e juntos ecoam e se integram ao motivo original.

Terceiro padrão criado para a intervanção - APOSTO n° 10

BR: Sobre a reação das pessoas e da cidade -- você esteve em Lisboa por algum tempo para acompanhar a repercussão? Como foi?

FC: Eu pude acompanhar um pouco da repercussão quando ainda estava em Lisboa, às vezes até imediatamente! Como por exemplo quando moradores dos prédios viam a intervenção logo após eu a ter executado. O curioso é que em alguns destes casos eu vi debates acalorados, mas nunca alguém os arrancou das paredes. Houve também casos de pessoas que me abordaram enquanto eu ainda colava os azulejos, e tive conversas ótimas com estas pessoas. Numa das vezes um rapaz lamentou que seu prédio não tivesse azulejos na fachada, pois ele gostaria que eu lá fizesse a intervenção! Interessante que nunca houve qualquer abordagem negativa.

Visita guiada promovida pela Casa da América Latina com diplomatas. (foto Rodrigo Vila)

Com as visitas guiadas promovidas pela Casa da América Latina eu pude ouvir comentários muito interessantes dos participantes das visitas. Vi também fotos e comentários no facebook e instagram, tanto de pessoas que compartilharam as minhas fotos, ou publicaram as suas próprias, o que continuo a acompanhar, pois a maior parte das intervenções ainda está pelas paredes, e vão continuar por lá enquanto as pessoas e as intempéries deixarem. E claro, há também a repercussão na mídia, tanto impressa como digital, mas principalmente nesta última, que foi muito além e muito maior do que eu poderia imaginar!

BR: você não teve receio de ter algum tipo de reação negativa por parte da câmara municipal, por exemplo? de o projeto ser mal interpretado?

FC: Tive muito receio! O tempo todo! Poderiam considerar o que eu fazia vandalismo. Passava na minha cabeça o tempo todo a imagem da minha deportação, ou então prisão, multa, tudo! Eu fiz o projeto sem pedir qualquer tipo de permissão, justamente pois queria que fosse algo que surgisse nas paredes sem nenhum tipo de aviso prévio, que fosse algo que pegasse as pessoas de surpresa. A maior parte das intervenções foi feita de madrugada. Mas felizmente antes de promover as visitas guiadas, a Casa da América Latina fez uma consulta à câmara municipal, que disse que não havia nada de ilegal ou criminoso no que eu fazia, e depois de sabê-lo eu passei a me sentir mais tranquilo na execução do projeto.

BR: fale um pouco mais sobre o interesse pela intervenção urbana e este amor por Lisboa.

Migração Monarca - Lisboa - 2014

FC: A primeira intervenção urbana que fiz em Lisboa, ano passado (Migração Monarca >>), aconteceu em paralelo a uma exposição que fiz no Rio de Janeiro, para a qual originalmente criei as bandeirinhas de papel de seda com os meus soldados “Monarcas” [veja neste link >>], uma vez que a proposta do curador da exposição, Marco Antonio Teobaldo, era justamente trabalhos efêmeros em papel de seda. A ideia de fazer bandeirinhas veio do fato desta exposição acontecer em junho, mês das nossas “festas juninas” que correspondem às festas dos santos populares em Lisboa, e as bandeirinhas de papel de seda colorido são a decoração mais característica das nossas festas juninas.

visita guiada à intervenção APOSTO com o curador Marco Antonio Teobaldo

Então daí foi um passo natural levar as minhas bandeirinhas para Lisboa, para misturá-las na decoração da festa dos santos populares, pois eu iria passar exatamente o mês de junho em Portugal, numa residência artística na Cerâmica São Bernardo, em Alcobaça. O nome, “Migração Monarca”, tem a ver com isso, a transposição de algo que nasceu no Rio de Janeiro e “voa” até Lisboa, como as borboletas monarcas, que são as únicas borboletas migratórias, que nascem no norte da África e migram até o Algarve, e justamente no início do verão, como eu estava para fazer. 2014 foi o ano em que se comemorou 40 anos do 25 de abril (soldados com asas vermelhas!); o tema das festas foi a "Peregrinação", livro de Fernão Mendes Pinto, que completou 400 anos da sua publicação... tudo parecia conspirar a meu favor!

Migração Monarca - Lisboa - 2014

O amor por Portugal de uma forma ampla, e por Lisboa em particular, se deu desta identificação imediata com a cultura lusitana que comentei antes, com a dinâmica das cidades, o ritmo de vida, o jeito das pessoas, com o qual eu não apenas me identifiquei, mas no qual me reconheci. Eu senti um imediato conforto, me senti mesmo em casa, como se retornasse à casa. Não deve ser algo tão incomum para um carioca, descendente de portugueses por todos os lados, mesmo que já bem lá para trás, tenho em minha família Carvalhos, Souzas, Rochas, Cardosos... Mas talvez para um carioca de alma mais melancólica e contemplativa, do que solar e festiva, e que ainda mais é filho de um professor universitário de cultura e literatura portuguesa, isso fosse algo inevitável, apenas esperando para acontecer.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

texto: Da Potência, ao Ato: uma entrevista com o artista brasileiro Fábio Carvalho

Esta entrevista faz parte de conversas com o artista brasileiro Fábio Carvalho que, no dia 8 de fevereiro de 2015 partiu para Lisboa para dar início ao projeto que chamou de Residência Artística HS13rc – uma iniciativa desvinculada de qualquer instituição, pensada e articulada por ele sob o mote “o artista não depende da instituição, o artista É A INSTITUIÇÃO”.



Momento I: A chegada


Maykson Cardoso: Outro dia conversava com um artista estrangeiro que se dizia estarrecido por ter percebido que a maioria dos artistas que conheceu por aqui se angustia com o fato de não ter a chancela de instituições para a realização de seus trabalhos. Foi interessante ouvi-lo e, em alguma medida, estou de acordo com ele. Ainda que não possamos obliterar o fenômeno dos coletivos de artistas que pululam, no Brasil e no exterior, com o propósito de colocar em xeque essa institucionalização, de criar, de fato, espaços alternativos que possam acolher ações artísticas das mais diversas. No entanto, a Residência HS13rc, enquanto uma iniciativa individual, isto é, que diz respeito apenas ao seu processo criativo, à sua produção e a recepção dela pelo público, nos aponta algo que aprendemos com Helio Oiticica e Lygia Clark, mas que parece ter sido esquecido: o que o artista PODE, ele mesmo, única e exclusivamente a partir dos materiais e meios que tem disponível... Enfim, acho que poderíamos começar a nossa conversa por aí...

Fábio Carvalho:  Isso é uma questão que me interessa profundamente. Não sei se é uma questão geracional, pois quando comecei, nos anos 1990, não havia praticamente nada! Era o período pós-Collor, todas as instituições públicas e privadas estavam quebradas. Quase nenhuma galeria comercial ainda funcionava a contento. A inflação de centros culturais ainda não havia começado. Quase não aconteciam exposições. Jamais se imaginaria, naquela época, uma feira de arte no Brasil, quanto mais duas, de peso.
Para quem estava começando então, a coisa era ainda pior, e a saída eram os salões de arte, que se multiplicaram naquela década, e as mostras de levantamento da produção emergente, como o Projeto Macunaíma, Antárctica Artes, entre outras. Uma coisa bastante comum, e nos primeiros anos da década de 2000, era ver artistas iniciantes e mesmo veteranos se juntando em grupos para produzir as suas próprias exposições, em espaços “oficiais” ou não. E tivemos exposições incríveis assim, e que são até hoje lembradas, como a série Orlândia, Nova Orlândia e Grande Orlândia, organizadas pela saudosa Márcia X e Ricardo Ventura.

E agora, em um movimento que já dura mais de 10 anos, multiplicaram-se as galerias comerciais, inclusive  galerias estrangeiras que se aportaram no Brasil; além das feiras de porte internacional, temos os centros culturais que, depois de uma multiplicação excessiva e posterior amadurecimento e “filtragem”, se tornaram instituições poderosas; as bienais também se multiplicaram. Temos agora tantas exposições que em noites de abertura, muitas vezes, é preciso abrir mão de algumas. É por isso, talvez, que os artistas tenham sentido que era a hora de aproveitar mais a maré institucional, pois realmente dá muito trabalho e muita canseira, fora o grande peso financeiro, produzir eventos independentes, ainda mais agora que tudo em nosso país ficou caríssimo. Não acho essa postura errada. As instituições são importantes e, algumas delas, fundamentais. É preciso que existam, para que haja um sistema de arte sólido. A questão é: elas não podem ser o único horizonte possível. Eu vejo muito artista iniciante que, depois de ter passado dois ou três anos em escolas de arte, não conseguem pensar em nada além de fazer parte do elenco de uma galeria, participar das feiras e se aproximar de curadores, de agentes, “badalados”.


MC: É interessante esse panorama que você apresenta. De fato, um “sistema oficial” de arte contemporânea no Brasil só muito recentemente vem se profissionalizando, o que culmina no surgimento de outras instituições, para além dos grandes museus... 

FC: Exato. O que quero dizer com tudo isso é que, em torno desse “sistema oficial”, pode e DEVE existir também uma cena mais independente, com movimentos que partam da iniciativa coletiva ou individual dos artistas. Estes movimentos acontecem ainda, não tanto como antes, mas deveria haver muito mais. E não apenas iniciativas de artistas buscando um lugar ao sol, mas de todos! Artistas veteranos também deveriam bancar ações independentes e fora do crivo institucional oficial. O Oiticica e a Lygia lá ficaram esperando que algum curador ou instituição lhes “autorizasse” a fazer qualquer uma das coisas que fizeram? Iniciativas que partam inteiramente dos próprios artistas são necessárias para renovar a cena artística, pois geralmente a paisagem oficial é um pouco fechada, viciada, tende a repetir nomes e temas. Os artistas TÊM QUE apontar novos caminhos, indicar as novas questões...


FC: Recentemente lancei a seguinte provocação, quando comecei a elaborar o projeto da Residência Artística HS13rc: “o artista não depende da instituição, o artista É A INSTITUIÇÃO”. E realmente acredito nisso! Mas estamos todos demasiadamente submissos, esperando a aprovação do curador do momento, e da acolhida pela galeria poderosa. Nos últimos anos participei de várias residências artísticas “oficiais”, algumas com orçamentos poderosos. Mas muitas vezes são justamente estas, que por um lado oferecem muita infraestrutura e conforto que, por outro, nos cerceiam com várias exigências, várias restrições.

MC: Entendo, este insight é mesmo interessante. É preciso que o artista faça, da potência, um ato. Em que momento isso ficou mais claro para você e permitiu que você pensasse na residência?

FC: um dia vi um artista publicar fotos de uma ação que era totalmente sem suporte institucional. Simplesmente o cara foi lá, ocupou temporariamente um local público, fez seu trabalho, produziu suas obras, realizou várias ações, registrou tudo, e decidiu que aquilo era SIM uma residência artística. E eu pensei “BRAVO! É isso mesmo! Ele está certíssimo!” O princípio de uma residência artística como uma experiência realizada longe de sua casa/atelier, fora da sua zona de conforto e costume estava lá. Ele lidou com questões específicas daquele local/experiência. Daí começou o processo da Residência Artística HS13rc, que não nasceu da carência de oportunidades, pois nos últimos 4 anos participei de 6 residências artísticas “oficiais” em Portugal, mas sim do desejo de poder fazer algo que não fosse balizado por nada ou ninguém, além da minha própria vontade. Ano passado já havia realizado uma intervenção urbana em Lisboa por conta própria, sem aprovação ou apoio de ninguém, mas este ano resolvi fazer algo de maior porte, não apenas uma intervenção urbana, mas uma verdadeira residência artística, de onde estão saindo vários trabalhos e ações, de caráter totalmente independente. E como uma provocação, eu decidi que o projeto teria um “nome institucional”, um programa/apresentação, onde estão listadas as propostas da residência, que tudo seria documentado, haveria um site/blog, etc. É um pacote completo, justamente para mostrar que é possível se pensar a produção e veiculação artística além das instituições oficiais. Pode soar um pouco romântico ou anacrônico em uma época tão pragmática, mas foi o que desejei fazer agora.

Intervenção Urbana APOSTO n° 33 | Lisboa - Portugal | impressão laser s/ papel e cola de amido sobre fachadas de edifícios

Momento II: Da Volta


MC: Já faz alguns dias que você voltou de Lisboa deixando, lá, nas paredes de Anjos, os vestígios de sua passagem: suas intervenções ora mínimas, ora tomando uma proporção um pouco maior, em ambos os casos - e acho que este é um traço indiscutível de seu trabalho - intervenções cirúrgicas...

FC: Imagino que você se refira ao fato que nas intervenções urbanas que já realizei há sempre como traço comum a preocupação com que a intervenção se integre de forma quase parasítica ao seu entorno, que silenciosamente invada e se agregue ao seu “hospedeiro”, e que crie uma relação com o que já estava lá antes.
Na intervenção que fiz este ano, chamada APOSTO, criei três novos padrões de azulejo, a partir de fotos de peças de um outro trabalho meu, chamado "Delicado Desejo", que são armas de fogo criadas a partir de um patchwork de diversas rendas. Os novos padrões foram impressos em papel, e depois os azulejos de papel foram aplicados com cola de amido em fachadas de prédios lisboetas onde os azulejos originais já estavam em falta nestas fachadas, por deterioração ou roubo.

Delicado desejo n° 6 | rendas | cortesia coleção Pedro Gomez, Lisboa, Portugal| 2014 | 30 x 40 cm

As intervenções vão desde a forma mais discreta possível, apenas 1 ou 2 azulejos de papel, até alguns casos de “invasões” maiores com 15, 24, até mesmo 38 azulejos. Era a própria parede que me dizia quantos azulejos deveriam ser inseridos junto aos azulejos originais. No total, usei pouco mais de 300 azulejos de papel em 45 pontos de intervenção. O resultado pode ser muito diferente, independente da escala da intervenção – algumas vezes os azulejos de papel causam um certo estranhamento ao olhar, quando há mais contraste entre azulejo de papel e azulejo cerâmico original, em outras podem ser facilmente confundidos com os azulejos originais, mesmo que estejam em grande número.

De toda forma, mesmo nos casos onde usei mais azulejos de papel, a escala final da intervenção é relativamente pequena, se pensarmos no que é tradicionalmente entendido como arte urbana: paredes inteiras de vários andares de altura, muros de muitos metros de extensão, ou esculturas monumentais. Meu interesse é outro. Talvez seja aí que você também veja o aspecto cirúrgico que mencionou. Os projetos que realizei até hoje foram sempre de uma escala discreta; são peças pequenas, infiltradas. Não são obras que cobrem e ocupam de forma incisiva e chamativa um espaço e uma superfície. Meus projetos atuam como pequenas inserções. As peças aparecem mais pelo contraste que causam, por perturbarem ou provocarem o que já está lá, do que se impondo de cima para baixo a um espaço. São peças que exigem uma aproximação, uma intimidade, para que possam agir. Ficam dormentes até que você as ative com seu olhar. Não gritam — sussurram.

Intervenção Urbana APOSTO n° 14 | Lisboa - Portugal | impressão laser s/ papel e cola de amido sobre fachadas de edifícios

Quando se grita, muitas vezes se consegue mais incomodar do que fazer refletir, pois o grito impede o pensamento. O grito impõe uma “verdade” pronta e definitiva. Quando alguém sussurra, instintivamente nos aproximamos mais para tentar entender. Por vezes não ouvimos tudo o que foi sussurrado, ou o que ouvimos não diz propositalmente tudo, e nossas mentes têm a necessidade instintiva de preencher os vazios. Buscamos sempre fazer sentido daquilo que apreendemos com nossos sentidos. É preciso compreender, decifrar e decidir se algo é potencialmente perigoso ou não, se é útil para nós de alguma forma, ou se é algo que se pode ficar indiferente. Isto é uma característica da espécie humana. Foi por isso que nos adaptamos tão bem a todos os ambientes, e nos espalhamos por todo o planeta como a mais bem-sucedida das pragas.

MC: Você sabe que sou formado em Letras, que sou professor de português e que não posso deixar de comentar o título que você deu ao seu projeto: "aposto". Gosto, especialmente, da ambivalência dessa palavra, isto é, sua condição de verbo em primeira pessoa — "eu aposto" — e, por outro lado, sua condição de informação "acessória" em uma frase: aquilo que complementa, que a enriquece, mas que, por outro lado, pode faltar. É por aí que você pensa esta sua intervenção?

FC: Para mim é sempre fundamental que um trabalho meu tenha um título, mas nunca um título descritivo ou explicativo. Eu busco títulos que sacudam certezas que se pode ter do trabalho, títulos que ampliem as possibilidades de compreensão e interpretação de um dado trabalho. Algumas vezes o título nasce de imediato. Nas demais, o dicionário é sempre o meu melhor amigo! Quando procurava o título para o projeto de intervenção urbana, comecei pelas ideias de acréscimo, inserção, invasão. Nas muitas voltas pelo dicionário de sinônimos, em algum momento passei por colocar, por, contrapor e... me veio à cabeça — como um flash de luz — APOSTO! Gramaticalmente, algo que aparece sempre entre vírgulas, travessões ou parênteses, ou seja, de alguma forma delimitado, cercado, o que faz um paralelo com os espaços vazios entre os azulejos cerâmicos; o aposto também é algo que se relaciona com um termo anterior, que no meu caso, obviamente, são os azulejos originais já existentes.

A possibilidade de ser a conjugação do verbo “apostar” não veio-me de imediato, mas apenas quando comecei a fazer as intervenções de madrugada, enfrentando um frio que deixava meus dedos duros e doloridos, o vento que levava embora os quadrados de papel que ainda não tinham aderido à parede, o susto com cada carro que passava, o temor que a próxima pessoa que se aproximasse fosse um policial ou um morador irritado. Foi só aí que eu me dei conta que aquilo era também uma grande aposta, em muitos sentidos! Eu não sabia se a intervenção iria funcionar, se alguém iria perceber os azulejos de papel em meio aos originais, eu não sabia sequer se no dia seguinte tudo já teria caído ou sido arrancado! Eu não sabia se eu poderia até mesmo ser preso ou obrigado a pagar alguma multa. E depois também me dei conta que todo o projeto da residência HS13rc era uma grande aposta! Era uma empreitada independente e sem qualquer apoio ou promoção institucional. Felizmente foi uma aposta que se revelou vencedora. Houve instituições que se aproximaram, como a Casa da América Latina e a Junta da Freguesia de Arroios, e que deram alguma forma de maior visibilidade ao projeto, e houve também uma grande repercussão sobre a intervenção urbana Aposto na mídia. Já encontrei também diversas fotos da intervenção no Instagram, facebook e Tumblr, e imagino que haja muitas mais que simplesmente não achei por não estarem com alguma hashtag.

quinta-feira, 5 de março de 2015

texto: reflexão sobre meus projetos de arte nas ruas

Estando aqui em Lisboa, cidade em que a arte urbana é muito presente, e ao mesmo tempo, muito institucionalizada, imerso na residência HS13rc, e realizando o projeto de intervenção urbana APOSTO, sinto a necessidade de fazer uma pequena reflexão.

Migração Monarca - 2014

O que fiz (e estou ainda fazendo) nestas duas vezes em que realizei projetos de arte nas ruas de Lisboa trata-se mais de intervenção artística no espaço urbano do que o tradicionalmente entendido como arte urbana. 

Migração Monarca - 2014

No meu caso os projetos são realizados sempre com peças de uma escala discreta; não são paredes inteiras, muros de 5 metros de extensão, ou esculturas monumentais. São peças pequenas, infiltradas. Não são obras que cobrem e ocupam de forma incisiva um espaço ou uma superfície. 

Nos dois projetos (Migração Monarca, de 2014, e Aposto, de 2015) houve o desejo de orientar meus trabalhos a partir de manifestações culturais tipicamente lisboetas, e ao mesmo tempo integrar os próprios projetos a estes elementos culturais que os informam e os guiam. No primeiro caso, as ornamentações das festas dos santos populares, e no segundo, as fachadas azulejares.

Aposto - 2015

Eu vejo muitos casos de arte urbana que anulam o que havia antes deles. Se pretendem mais chamativos do que qualquer outra coisa que exista nas imediações. Não é por aí que eu gosto de ir. Eu gosto de tentar um diálogo com o que já existe. 

Meus dois projetos atuam como pequenas inserções, peças que invadem quase como um parasita e que se agregam ao hospedeiro, muito maior que ele. As peças aparecem mais pelo contraste que provocam, por perturbarem ou provocarem o que já está lá, do que se impondo de cima para baixo a um espaço.

Aposto - 2015

São peças que exigem uma aproximação, uma intimidade, para que possam agir. Ficam dormentes até que você as ative com seu olhar. Não gritam — sussurram. São vírus, e não elefantes. E vírus podem derrubar elefantes.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

texto: Relexão sobre residências artísticas

O artista plástico é geralmente um solitário, introspectivo, no que diz respeito à sua criação. E essa introspecção é fácil de compreender, uma vez que seu trabalho depende de uma investigação profunda de questões e valores pessoais. Mas ao mesmo tempo, um artista depende de constante estímulo para produzir sua obra.



E como qualquer outra pessoa, o criador também constantemente se vê afundado em meio a rotinas e repetições da vida mais prática, o que pode ser um veneno para a criação. Então, como equilibrar a necessidade de reserva e silêncio, fugir da monotonia massacrante do dia a dia, e buscar novos estímulos para seu trabalho?

Naturalmente cada artista tem a sua fórmula para este problema. Como artista plástico acho que uma das maneiras mais ricas de conciliar espaço e tranquilidade para a criação, quebra da rotina e estímulo constante são as residências artísticas. Uma residência artística pode transformar e reorientar seu trabalho.


Estar em outro local, outra realidade, onde tudo é novidade, tudo é informação fresquinha, a cada esquina, a cada minuto, pois nada daquilo faz parte do seu território ou da sua zona de conforto, te tira do óbvio, te leva a refletir muito além do habitual. Experimenta-se por algum tempo uma outra vida. Você precisa se adaptar, criar novas interfaces. 


Você apreende em pouco tempo muito mais do que apreenderia na sua rotina já bem conhecida de casa. Há um compromisso em pensar um novo trabalho em resposta a este novo local. É preciso criar novas saídas, novas formas, novos meios, descobrir e aprender novas técnicas. É um momento fundamental de retirada e de isolamento, o que propicia o contato com questões profundas do seu trabalho, que resultam em novos caminhos de produção.

E além disso, há o contato e as trocas com os outros artistas que estão lá na residência artística ao mesmo tempo que você. Muitas vezes pessoas de diversas nacionalidades, com as quais normalmente você não teria oportunidade de conviver.


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

texto: Apresentação - Residência e Ocupação Artística HS13rc | Lisboa | PT

Fábio Carvalho parte mais uma vez para Portugal, onde fará a Residência e Ocupação Artística HS13rc em Lisboa.


O projeto consiste ao mesmo tempo de uma Residência Artística e uma Ocupação, pois os trabalhos decorrentes da residência artística serão expostos, no próprio estúdio, à medida que forem ficando prontos. Durante os 35 dias da residência artística, entre fevereiro e março, o artista receberá convidados em seu estúdio para acompanhar a produção, trocar ideias, debater sobre suas questões em arte, ou qualquer outro assunto que possa surgir.

Num primeiro momento, o artista pretende dar desdobramento a sua série de trabalhos mais recente, chamada "Delicado Desejo". Nesta série, onde vemos armas de fogo compostas por um patchwork de rendas diversas, o artista faz uma reflexão da mistura de fascínio e repulsa que muitos têm pelas armas de fogo, em especial no continente americano. Tal como nos EUA, também no Brasil as armas de fogo são símbolos de poder e força. No crime organizado, quanto maior o calibre e o poder de destruição de uma arma, maior é o status do indivíduo dentro da organização. E consequentemente, maior seu poder e território comandado.
Delicado Desejo | rendas diversas | 2015

A série "Delicado Desejo" é ainda uma crítica aos estereótipos de masculinidade, uma vez que as armas de fogo são também uma demonstração ostensiva da virilidade de um sujeito. Só que aqui as armas são feitas de rendas delicadas, florais, que originalmente são produzidas para serem usadas como apliques e ornamentação de roupas femininas.

Além de desenvolver os desdobramentos da série "Delicado Desejo", Fábio Carvalho pretende registrar como os portugueses reagem a estas imagens, e buscar paralelos e oposições entre estas reações com as do público brasileiro.

Para registrar o processo da residência e ocupação artística, e permitir a quem está fora de Lisboa acompanhar o desenvolvimento do projeto, e até mesmo participar através de mensagens e bate-papos online, será criado um álbum no facebook (link >>) e neste blog (HS13rcLisboa.blogspot.com.br), onde fotos e anotações do dia a dia serão publicadas regularmente.

A ocupação irá também se espalhar pelas imediações. 

O artista está preparando um novo projeto de intervenção urbana, chamado "Cowboys and Angels", que será distribuido por postos estratégicos na área da antiga freguesia dos Anjos, onde fica o estúdio que será ocupado pelo artista. Anjos é uma antiga freguesia portuguesa em Lisboa, instituída em 1564. A região de Anjos em Lisboa possui vários espaços culturais, muitos de caráter independente, com exposições, concertos, dança, poesia, etc., de forma que as visitas ao estúdio do artista poderão ser "esticadas" depois até um destes espaços culturais.

Cabe lembrar que em junho de 2014 Fábio Carvalho fez uma intervenção urbana na cidade, durante as tradicionais Festas dos Santos Populares de Lisboa, que correspondem às festas juninas brasileiras, acrescentando bandeirinhas de papel de seda com seus "Monarcas" - soldados em uniforme camuflado, com asas de borboleta saindo de suas costas - às decorações já existentes pelas ruas.

Fábio Carvalho | Migração Monarca - Lisboa
impressão (tinta acrílica) com carimbos s/ papel de seda, linha, cola | 2014